terça-feira, 13 de maio de 2008

Infértil




Mela minha boca rachada
De espuma salgada do mar
Branqueia a minha impureza
Limpando meu nome vulgar

Largada de tantas esperas
Esfrego no chão meu suor
Sozinha na minha nudez.

Sofro de amor nesse instante
Não sei por que ou por quem
Talvez seja apenas desejo
De estar sobre mais alguém

Só assim me lambe a praia
Por uma onda abrupta
A pele vagueia molhada
Num rubor de angústia

Largada de tantas esperas
Esfrego no chão meu suor
Sozinha na minha nudez

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lenta


Lenta
Como a lagarta se arrastando,
Lenta
Como a lágrima escorrendo,
Lenta
Como um dia sem sorte,
Lenta,
Assim caminho.

E tudo o que vejo
É subtraído,
É filtrado


Para encontrar uma gota de beleza,
O processo
É lento.


Nara Loupe

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O encontro das partes




O corpo, curral da alma
Protegida, domesticada,
Caminha parética e torta;
Esforça-se na tentativa
De alcançar o equilíbrio
No ziguezague dos princípios,
Tantos obstáculos proibindo,
A alma veste o espartilho.
Se o corpo é o templo
Dado ao teu espírito,
Que seja usado sem castigo.
A alma precisa dançar
Mesmo que seja no corpo
Tire a corda desse pescoço!
A carne não é fraca,
Só precisa de calor e gosta
De exibir-se sem pudor.
Não divida-se em partes,
Goze do teu domínio,
Deixai livre o instinto,
Este é puro do animal
Bem longe de assombração,
Das entranhas a imaginação.
Nas tuas idéias efervescentes
Vão jogar copos de areia
E te roubar a ceia,
O corpo grita, a alma clama,
O prazer é a doce lama
A que todos nos atiramos.

Nara Loupe

sábado, 10 de novembro de 2007

Pelas dores de cabeça





Sonhar é um tapa

Na cara da realidade.

Quem quiser que veja!

Ficar de olhos abertos

É um susto que não passa

E deixa suspenso de pavor,

Forçando a ver

O real insuportável

De todas as manhãs.

Loucura é uma sorte,

Um instante livre

Pelo universo apagado.

Devaneios pelo incerto

Porque não há caminhos,

Porque não há escolha,

Só sonhar,

Imaginar as coisas

Do jeito que se deseja.

Deus é uma aspirina

Para usar em dias ruins.

Mesmo que seja placebo,

Pílula de papel,

Importa o falso efeito,

Que faça sentir-se bem

Do jeito que lhe convém.

Mistura, faz um ritual

E bebe o sonho inteiro

Num gole inevitável.


Nara Loupe

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Amassados papéis de amanhã





Embora não tenha dito,

Tudo estará revelado

Na cama, amassados

Papéis de amanhã.

A boca quando cala

No velho batom escuro

Esconde palavras francas.

Um segundo de pensamento.

Um momento de ser humano.

Há pessoas geladas,

Deixam escapar a essência,

A outra face no espelho;

Levam sobre o pescoço

Relógio e não cabeça;

Duas pilhas grandes no peito...

Dançam como robôs,

Vivem da repetição.

Onde está o impulso?

A volúpia sem culpa,

O uso dos sentidos?

Mas nada sentem,

Só o desejo mudo,

Mal nutrido,

Tetraplégico.

Insatisfeito.

Nara Loupe