terça-feira, 5 de agosto de 2008

aos amargos


Um suicida
No beiral do edifício
Olha para baixo e cogita se jogar
Abriu os braços
Mas não teve coragem
Porque não teve desejo.

Uma criança
Que mal nasceu
Não viu a luz quente do sol
Mas sofreu sob a artificial
Entrou em coma
E faleceu.

Uma nuvem cinza
Pesada de vergonha
Que demora sobre nossas cabeças
Ameaçadora
Mas lentamente e concentrada
Passa e vai para longe
Cair em tempestade.

Um louco
De calças sujas de excretos
Berrando coisas incompreensíveis
Sua carne fede
Ele caminha rapidamente pela rua
Na certeza de que achará o castelo.

Um leão
Sendo engaiolado
Rugindo todo o seu instinto
Ainda arisco, movido pela fome
De coisas que sangram
Lançado num circo
Adoece e se deixa domar.

Um assassino
Que se arrepende
Entrega-se, é algemado.
Mas uma vez atrás das grades
Volta a se sentir bem
Prova de uma liberdade
Que não sentia enquanto fugitivo

Um enfermo
Respiração ofegante
Dor, náusea e tremores
Anorexia, hipertensão...
Salvo pelos anticorpos,
Anticulpas, antivergonhas.

(Nara Loupe)

2 comentários:

Paulo Nunes disse...

Sinto cheiro de Zaratustra aqui, será que estou enganado?

Boogie Boy disse...

Wow!!!
Gostei, vc tem talento pra descrever esse conformismo incômodo e que afeta boa parte do ordinário.

abraços.